UMA NOVA REALIDADE
A tua morte, querida, está me fazendo encarar uma nova realidade. Vivemos a vida a partir do passado, começando pelo nosso nascimento. Olhando sempre para frente. Quanto mais moços, maior a convicção de um longo futuro. Para o qual temos muitos e grandes planos. Um futuro bem mais longo do que o passado. A interrupção de nossos objetivos está sempre fora de cogitação. Da minha, ao menos, sempre esteve. Mas, de repente tu morres e eu me defronto com um outro contexto de vida. Inesperado. Imprevisto. Embora sempre passível de ocorrer. Olho-me e faço a primeira e dura constatação. Sou um octogenário. Nada de eufemismo de melhor idade. A idade não se mede pelo tempo, mas pela vida vivida. Sem ilusões. Porque os jovens, as crianças também morrem. Morre-se em qualquer idade. A segunda constatação é a de que, medida pelo passado, a minha vida foi longa, e, apesar de todos os percalços, bonita, feliz, bem aproveitada. Com momentos inesquecíveis. Se nem tudo saiu como esperava, aconteceu como tinha de acontecer, face às circunstâncias e às atitudes tomadas. Sem queixa, portanto. Mas, agora, querida, estatisticamente, o meu futuro é curto. Advêm, então, a terceira constatação. O futuro é curto, mas precisa ser vivido. Ao contrário da infância ou da mocidade, ele será necessariamente enfrentado de forma inversa. Não mais a partir do começo, quando nos conhecemos, pôr exemplo, mas a partir do fim, quando morreste.. Quase todo o meu tempo foi passado contigo. O restante será vivido sem ti. Sem planos conjuntos. Mas, individuais e adaptáveis à uma nova realidade. Um futuro curto, comparativamente ao passado. E incerto. Apresentado a uma esfinge qualquer, teria como resposta: "desvenda-me ou morre". Desvendar o futuro, por mais curto que seja, impossível. Deixar-se morrer aos poucos, suicídio. Há, então, que viver. Olhando para frente. Com coragem. Otimismo. Auto-estima. Da melhor forma, possível. Com objetivos e planos de curto prazo, que não há espaço-tempo para longos. Aplicando minhas capacidades pessoais em atividades que me dêem satisfação. Sem descuidar-me do lado emocional. Reforçando antigos relacionamentos e, se possível, buscando novos. Para não me sentir rejeitado, desamado, fora do contexto. Mas, preparado e atento para não ser novamente surpreendido pelo Anjo da morte. Que, desta vez, virá não para me ferir e afligir. Senão para me consolar e completar o plano divino de reunir na eternidade quem Ele separou no tempo. Sacramentando, com isso, querida, o nosso plano humano. Que nem a morte nos separasse.

0 Comments:
Post a Comment
<< Home