Wednesday, July 28, 2004

S I M B O L O G I A S

Vez por outra, publicamente ou em reuniões de grupos, discute-se o fato ou costume de colocar-se um crucifixo em salas de aula, de audiências ou outros recintos públicos estatais. Os que se manifestam favoravelmente, partem do princípio de que somos um país, estatisticamente, de predominância católica ou cristã. E o crucifixo é o símbolo por excelência do cristianismo. Os contrários argumentam com o laicalismo do Estado. Com a liberdade religiosa. Particularmente, não sou contra nem a favor. E por duas razões. Primeiramente, quando se entroniza ou afixa um símbolo, como o crucifixo, em qualquer recinto, até mesmo no lar, deve-se, no mínimo, ser fiel à simbologia e coerente com ela. Não se pode exibir a imagem de alguém, cujos princípios aparentemente esposamos, mas, na prática, temos atitudes e comportamento totalmente diversos. Uma hipocrisia. Ou um gesto sem sentido. Em segundo lugar, o importante não é mostrar, simbolicamente, que acreditamos em algo ou alguém. Após a morte de minha mulher, no auge da minha dor, fixei fotos suas em quase todas as paredes de nosso apartamento. Um gesto de amor. Mas secundário, se ela não estiver, em primeiro lugar, no meu coração. Norteando-me na prática dos princípios em que juntos acreditamos. As fotos podem um dia amarelecer e, até mesmo, serem retiradas de onde estão. Ela só será uma permanente realidade se estiver dentro de mim. No fato em causa, mais importante do que a exibição, em qualquer recinto, do Crucificado é sermos a corporificação do que Ele pregou e pelo que foi pregado. A encarnação de Seu ideal. “Vós sois o sal da terra e a luz do mundo”, disse Ele. Se formos excessivamente parcimoniosos, ou quase omissos, no uso do sal, o alimento servido, o nosso exemplo, será insosso. Sem graça. Sem valia. Em compensação, se carregarmos no sal, impondo nossas idéias, a comida não será tragada, mas rejeitada. Da mesma forma, a luz. Fraca, bruxuleante, quase apagada, de nada servirá. Não iluminará ninguém. Forte de mais, cegará as pessoas. Agredindo-lhes os olhos e a consciência. Em suma, não devemos nos impor, mas expor-nos. Sem farisaismo e sem respeito humano. A cruz não é uma imposição. É uma opção voluntária pelo amor.

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