NOSSAS ROUPAS DEPENDURADAS
Era um hábito vindo dos meus tempos de solteiro, vivendo em pensão. Lavar minhas meias e cuecas durante o banho. Um hábito que acabaste também adquirindo. À noite, quando nos despíamos para vestir pijama e camisão, jogávamos cueca e calcinha dentro da banheira ou do box, para serem lavados no dia seguinte, quando do banho matinal. Lá ficávamos juntinhos, nós na cama e a minha cueca e a tua calcinha no banheiro. Cansei de lavar minhas cuecas e tuas calcinhas. E tu fazias o mesmo. Se tomavas banho antes de mim, me avisavas: “olha, já lavei tuas cuecas.” Se era eu o primeiro a me banhar, dizias: “não lava as minhas calças”. Não gostavas, porque tinhas problemas, sei lá de que. Coisas de mulher. Eu não ligava. Bobagem tua. Cansaste, ao te desnudares na cama, para fazer amor, de tirar a calcinha e jogá-la em cima de mim, ou até mesmo, provocadoramente, esfregá-la no meu rosto, para que a cheirasse. O que eu fazia com prazer. Ela tinha o teu cheirinho, que sempre me inebriou e de que sinto falta até hoje. Como diz Salomão no seu “Cantico dos Canticos”, “o odor de teu perfume excedia o de todos os aromas”. Eu e minhas cuecas, que dormem sozinhas no box, estamos saudosos de tuas calcinhas. Durante a semana, elas ficavam dependuradas nas torneiras do box. Ao lavá-lo, a empregada as recolhia e pendurava no secador da área. Aos sábados e domingos, quando dispensávamos a empregada, a tarefa era minha. Pendurar as nossas peças íntimas. E eu o fazia, apesar de teus protestos. Era uma tarefa sagrada para mim. Como tudo em ti e no teu corpo foi sempre sagrado. Em qualquer circunstância, em qualquer lugar, em qualquer ato praticado por nós, sempre te considerei como pessoa humana, criada à imagem de Deus. Pendurar tuas calcinhas no secador, cheirando-as ou até mesmo, por quê não dizê-lo, beijando-as, era um desses atos que faziam parte da nossa saga amorosa. Era mais um fio, tecido na teia do amor, que nos cobria e imunizava contra qualquer ato de possível infidelidade conjugal. Uma teia forte, resistente, capaz de nos manter unidos até tua morte. Minhas cuecas, hoje, infelizmente, ficam solitariamente penduradas. Não sei o que pensam. Para mim é um ponto a menos de contato contigo. Uma imagem a mais, refletindo a tua ausência e comprovando a minha solidão. Ah!... Que saudade das tuas calcinhas dependuradas.
(Página do livro inédito “Falando Com Ela” ou “Diário de Um Grande Amor”. )
