Wednesday, September 08, 2004

NOSSAS ROUPAS DEPENDURADAS

Era um hábito vindo dos meus tempos de solteiro, vivendo em pensão. Lavar minhas meias e cuecas durante o banho. Um hábito que acabaste também adquirindo. À noite, quando nos despíamos para vestir pijama e camisão, jogávamos cueca e calcinha dentro da banheira ou do box, para serem lavados no dia seguinte, quando do banho matinal. Lá ficávamos juntinhos, nós na cama e a minha cueca e a tua calcinha no banheiro. Cansei de lavar minhas cuecas e tuas calcinhas. E tu fazias o mesmo. Se tomavas banho antes de mim, me avisavas: “olha, já lavei tuas cuecas.” Se era eu o primeiro a me banhar, dizias: “não lava as minhas calças”. Não gostavas, porque tinhas problemas, sei lá de que. Coisas de mulher. Eu não ligava. Bobagem tua. Cansaste, ao te desnudares na cama, para fazer amor, de tirar a calcinha e jogá-la em cima de mim, ou até mesmo, provocadoramente, esfregá-la no meu rosto, para que a cheirasse. O que eu fazia com prazer. Ela tinha o teu cheirinho, que sempre me inebriou e de que sinto falta até hoje. Como diz Salomão no seu “Cantico dos Canticos”, “o odor de teu perfume excedia o de todos os aromas”. Eu e minhas cuecas, que dormem sozinhas no box, estamos saudosos de tuas calcinhas. Durante a semana, elas ficavam dependuradas nas torneiras do box. Ao lavá-lo, a empregada as recolhia e pendurava no secador da área. Aos sábados e domingos, quando dispensávamos a empregada, a tarefa era minha. Pendurar as nossas peças íntimas. E eu o fazia, apesar de teus protestos. Era uma tarefa sagrada para mim. Como tudo em ti e no teu corpo foi sempre sagrado. Em qualquer circunstância, em qualquer lugar, em qualquer ato praticado por nós, sempre te considerei como pessoa humana, criada à imagem de Deus. Pendurar tuas calcinhas no secador, cheirando-as ou até mesmo, por quê não dizê-lo, beijando-as, era um desses atos que faziam parte da nossa saga amorosa. Era mais um fio, tecido na teia do amor, que nos cobria e imunizava contra qualquer ato de possível infidelidade conjugal. Uma teia forte, resistente, capaz de nos manter unidos até tua morte. Minhas cuecas, hoje, infelizmente, ficam solitariamente penduradas. Não sei o que pensam. Para mim é um ponto a menos de contato contigo. Uma imagem a mais, refletindo a tua ausência e comprovando a minha solidão. Ah!... Que saudade das tuas calcinhas dependuradas.
(Página do livro inédito “Falando Com Ela” ou “Diário de Um Grande Amor”. )

Wednesday, August 18, 2004

O NOSSO CÂNTICO DOS CÂNTICOS

Eunice querida, esposa amada:
Por quê morreste antes de mim ?
Por quê não nos amamos muito mais do que nos amamos ?
Por quê não nos entregamos mais vezes um ao outro ?
Por quê não fomos mais enamorados, olhando-nos bem dentro dos olhos, para ver o carinho, o amor, a paixão existentes dentro deles ?
Por quê não provei mais vezes o mel que jorrava de tuas boca ?
Por quê não demos mais vezes aqueles beijos prolongados, quando ficavas com o lábios assados e eu com a lingua inchada ?
Por quê não me deliciei mais com o perfume de teu corpo ?
Por quê, ao fazermos amor, não usamos toda a nossa habilidade para que o nosso prazer fosse mútuo e nenhum dos dois parasse de navegar, enquanto não chegássemos juntos ao porto ?
Por quê não fomos, outras e outras vezes mais, eu gato, mordendo o teu cangote, e tu a minha gatinha, em vez de simples pombinhos arrulhantes ?
Por quê não te lambi mais vezes, como costumava fazer ?
Por quê não admirei e beijei mais vezes aqueles dois pomos maduros e apetitosos plantados em teu peito ?
Por quê não me desalterei mais vezes no manancial de água límpida e pura, que jorrava de todas as partes de teu corpo ?
Por que não nos transformamos mais vezes o eu e o tu num nós, vivendo e consumindo apaixonados a nossa humanidade ?
Por quê não nos saciamos, até à embriaguez, como Salomão, em nossas mútuas carícias ?
Por quê Deus não permitiu morrêssemos juntos, abraçados, boca na boca, corpo no corpo, consumindo-nos num derradeiro êxtase de amor ?
Este, querida, como o da Bíblia, é o nosso “Cântico dos Cânticos”. Síntese de nossa vida de amor, que tivemos a felicidade de gozar aqui na terra, e com cujo término não me consolarei jamais ! Por isso, continuo falando contigo.

O PESO DA URNA

Quando presidimos o Lions Clube Independência, recebemos a visita do presidente internacional. Não lhe recordo o nome. Era Pastor de uma igreja, em Tulsa, no Estado de Oklaoma, nos Esteites. Ele nos contou uma historinha jamais esquecida. À frente do altar, recebendo os cumprimentos da comunidade, divisou na fila um jovem com outro jovem, quase de seu tamanho, ao colo. Deveria ser paralítico. Ao aproximar-se, o Pastor lhe perguntou: “Ele pesa muito ?”... O jovem respondeu-lhe: “Não, ele é meu irmão”. Dois dias após tua morte, fui com a Daniela buscar a urna com as tuas cinzas. Recebia-a dentro de uma sacola. A Daniela não teve, acredito, coragem de segurá-la. Nem eu lhe permitiria. O encargo de carregar sua mãe pela última vez era meu. Limitou-se a perguntar: “pesa muito, pai ?”...Recordando o Pastor, tive vontade de retrucar-lhe: “Não filha, ela é tua mãe e minha mulher.” Realmente, ao longo de mais de meio século de felicidade compartida, tu nunca me pesaste, querida. Jamais me foste um fardo. O contrário, sim. À vezes em que minha cruz me pareceu pesada, tu foste o meu Simão Cirineu. Não sei a razão, talvez um problema ósseo, foste sempre caideira. Vez por outra, levavas um tombo. Em casa, na rua, no supermercado. Porisso, quando saias sozinha, te fazia mil recomendações. Teu primeiro tombo ocorreu quando éramos noivos. Vestias um longuinho preto, próprio da moda da época. Ao descermos as escadarias do Viaduto Octávio Rocha, vindos do teu apartamento, tropeçaste, enfiaste tuas pernas no meio das minhas, indo parar os dois deitados na calçada. Vestido rasgado, escoriados, o remédio foi voltarmos para casa. Não tive dúvidas. Peguei-te, eras magrinha, e subi as escadarias, ante o olhar atônito dos transeuntes, contigo no colo. Foi a primeira vez que desfilaste em público, nos meus braços. Mas, não foi a última. Estávamos em Veneza, loucos para conhecer a Praça de São Marcos. Tu tiveras, em Paris, um princípio de flebite e o médico te recomendara repouso. Deixei-te no hotel e fui sozinho ver a praça iluminada, com suas bandas de música. Um espetáculo que desejei, de imediato, desfrutar contigo. Era o tempo em que Veneza quase afunda. A praça estava cheia de moirões, para as pessoas transitarem sem se molhar. Justo o que não podias. Peguei-te no colo e atravessamos a famosa piazza. Lembrando tudo isso, se me fosse dado, tu não terias subido sozinha as escadarias do céu. Eu te carregaria no colo, depositando-te, como oblação, nos braços da Virgem, tua e nossa mãe e a quem eras tão devotada.

Wednesday, August 04, 2004

ESTOU TE ESPERANDO

Sozinho em casa, sei agora porque, depois que a empregada ia embora, e eu me demorava no escritório, tu me chamavas pela secretária eletrônica: “Paie...Paie...Paie...! Tou te esperando !” E eu te respondia – “Mãee...Mãee...Mãee, já tou indo.” Era a saudade batendo à tua porta. A vontade de estar comigo, de sentir a minha presença. Acho até que previas alguma coisa !... Querias, a todo o custo, segurar e assegurar a nossa terna e amorosa companhia, antes que algo acontecesse. Que u’a mão invisível nos separasse. Se as pessoas parassem para pensar na riqueza dessas três palavrinhas mágicas – “tou te esperando !”... Elas encerram um mundo de amor, de segurança, de felicidade, de perdão, de esperança, de tranqüilidade. De tudo, enfim. Elas dizem que você tem um amor que muitos procuram e não têm. Ou tiveram e perderam. Têm um ombro amigo para chorar e um colo para deitar a sua cabeça. Elas representam a segurança de que você precisa, quando atravessa as ondas revoltas do mar da vida. Elas transformam as suas derrotas em vitórias. Suas tristezas em alegrias. Seus sofrimentos em lenitivo. Elas têm o dom de transformar a sua vida de inferno num paraíso de felicidade. Se você errou, pecou, contra o céu ou contra ela, você sente, pelo chamado, que tudo lhe foi perdoado, em nome do amor. Pois, o importante é a sua volta. “Apesar de tudo o que me aprontaste, tou te esperando !...” Quando você se desespera, acha que tudo vai mal, não há mais saída, tem, até mesmo, em desespero de causa, vontade de acabar com sua própria vida, você recobra a esperança, porque sabe que tem alguém lhe esperando. Alguém precisando de você. Porque sem você, também ela, não sabe viver. Ela é a tranqüilidade. A bonança, o porto seguro, a paz. O travesseiro onde pode repousar a cabeça, acariciado por seu amor. Recordando teu chamado, quase lancinante, querida, fico num dilema. Permaneço em casa, sozinho, onde tudo respira a tua presença, mas sofro a solidão da solidão, ou saio, caminhando ao léu, sem vontade de voltar, sentindo, no meio da turba multa das ruas, a solidão da alienação. Mas, não há mais ninguém à minha espera ?! ...Em vão, fico no aguardo daquelas três palavrinhas mágicas: “tou te esperando”. Nessas horas, não sei se tenho peninha de ti ou pena de mim. Tu me chamavas e eu vinha. Eu te chamo e tu não vens mais Resta-me a esperança de, quando eu morrer, estares, como o pai do filho pródigo, me esperando na soleira do céu. Afinal, a vida inteira eu fui um pródigo do teu amor.

Friday, July 30, 2004

A CONSCIÊNCIA DO BEM PERDIDO

O grande pensador, que foi Pascal, escreveu, certa vez, que se o homem não tivesse “caido”, perdido o Paraiso, poderia gozar, na sua inocência, da verdade e da felicidade, em toda a plenitude. Mas, se não houvesse “caido”, não poderia ter nenhuma idéia da verdade nem da felicidade. A queda foi que lhe deu a consciência do bem perdido. Enquanto vivi contigo, querida, num verdadeiro paraiso terrestre, eu não tinha consciência exata do quanto representavas para mim. Ouso dizer, nossa vida foi realmente um Eden. Nos casamos por amor, por puro amor. Tivemos e criamos nossos filhos, curtimos nossos netos e ainda conseguiste curtir um pouco a tua bisneta. Construimos juntos um amor ardente e empolgante. Juntos crescemos na fé. Uma fé sincera e profunda, fruto da tua crescente espiritualidade. Conquistamos e tivemos amigos. A maioria deles, circunstanciais, ficou pelo caminho. Gozamos, apesar dos tropeços, a que todos estamos sujeitos, uma felicidade que, desejaria, todos os casais gozassem. Foste, não canso de proclamar, minha filha, minha mãe, minha companheira, minha amiga. Como esposa, foste minha amante, quando, recíprocamente, nos fartamos de todos os tipos de carícias que só casais, que verdadeiramente se amam, sabem se proporcionar. Se a morte tem muito de trágico e incompreensivel, quando nos leva para sempre a pessoa amada, ela tem também muito de profundo. De consolador. Ela nos leva ao encontro da verdade. Nos devolve a consciência, que pensávamos ter, mas não tínhamos, do bem perdido. Enquanto a pessoa amada permaneceu ao nosso lado, distribuindo seus afagos, seu devotamento, nós não enxergávamos a verdadeira dimensão do seu amor. Do que ela significava para nós. Com a sua morte, caimos do cavalo, como Saulo, de Tarso, cego, às portas de Damasco, e nos tornamos Paulo, o Apóstolo. “Senhor, que queres que eu faça ?”... Querida, que posso fazer, para viver contigo, novamente, no paraiso ? ...A queda nos aponta o verdadeiro significado da morte. Ela dá sentido à vida. Sem a morte, não dariamos o exato valor à pessoa amada, que morreu. Se viver na terra com ela era um paraiso, morta ela nos aponta o caminho para o eterno paraiso. Onde não existirá morte nem separação. Onde, juntos, nos desalteraremos na fonte inextinguível de amor e felicidade, que é Deus.

Wednesday, July 28, 2004

S I M B O L O G I A S

Vez por outra, publicamente ou em reuniões de grupos, discute-se o fato ou costume de colocar-se um crucifixo em salas de aula, de audiências ou outros recintos públicos estatais. Os que se manifestam favoravelmente, partem do princípio de que somos um país, estatisticamente, de predominância católica ou cristã. E o crucifixo é o símbolo por excelência do cristianismo. Os contrários argumentam com o laicalismo do Estado. Com a liberdade religiosa. Particularmente, não sou contra nem a favor. E por duas razões. Primeiramente, quando se entroniza ou afixa um símbolo, como o crucifixo, em qualquer recinto, até mesmo no lar, deve-se, no mínimo, ser fiel à simbologia e coerente com ela. Não se pode exibir a imagem de alguém, cujos princípios aparentemente esposamos, mas, na prática, temos atitudes e comportamento totalmente diversos. Uma hipocrisia. Ou um gesto sem sentido. Em segundo lugar, o importante não é mostrar, simbolicamente, que acreditamos em algo ou alguém. Após a morte de minha mulher, no auge da minha dor, fixei fotos suas em quase todas as paredes de nosso apartamento. Um gesto de amor. Mas secundário, se ela não estiver, em primeiro lugar, no meu coração. Norteando-me na prática dos princípios em que juntos acreditamos. As fotos podem um dia amarelecer e, até mesmo, serem retiradas de onde estão. Ela só será uma permanente realidade se estiver dentro de mim. No fato em causa, mais importante do que a exibição, em qualquer recinto, do Crucificado é sermos a corporificação do que Ele pregou e pelo que foi pregado. A encarnação de Seu ideal. “Vós sois o sal da terra e a luz do mundo”, disse Ele. Se formos excessivamente parcimoniosos, ou quase omissos, no uso do sal, o alimento servido, o nosso exemplo, será insosso. Sem graça. Sem valia. Em compensação, se carregarmos no sal, impondo nossas idéias, a comida não será tragada, mas rejeitada. Da mesma forma, a luz. Fraca, bruxuleante, quase apagada, de nada servirá. Não iluminará ninguém. Forte de mais, cegará as pessoas. Agredindo-lhes os olhos e a consciência. Em suma, não devemos nos impor, mas expor-nos. Sem farisaismo e sem respeito humano. A cruz não é uma imposição. É uma opção voluntária pelo amor.

QUE É, AFINAL, O AMOR ?

Dia destes, escrevi neste jornal sobre o amor. Recebi, entre outros, dois questionamentos. O primeiro: “o que é, afinal, o amor ?”. Uma curiosidade. O outro: “existe esse tal de amor”? . Uma desilusão, quem sabe, decorrente de relacionamentos anteriores. O amor, como a fé, a esperança, a justiça, a humildade e outros sentimentos, é uma virtude. Teologal ou cardeal, não importa. E, como toda a virtude, ele é uma abstração. Não é algo visível. Concreto. Tangível. Que, pôr exemplo se pode comprar. O amor não existe em si. Ele existe personificado. Há, sim, pessoas virtuosas, amorosas, esperançosas, justas ou injustas, fiéis ou infiéis. Costuma-se dizer “aquela pessoa é um amor”. A propósito, amor não é caridade, como igrejas pudicamente costumam nominá-lo. Caridade sabe a esmola. Algo que se doa a outrem e que. muitas vezes, nos é até mesmo supérfluo. Cristo nunca falou em caridade, sempre em amor. Amor é doação total, sem restrições, de um ser a outro
ser. A conjunção carnal, realizada com amor e por amor, é uma celebração eucarística. Fala-se, erradamente, em “fazer amor”, quando, pôr instinto irracional, se está realmente “fazendo sexo”. O amor é sentimento corporificado. Sem essa corporificação , ele é invisivel. Apenas, sensível. Como o perfume ou o vento, que não vemos mas sentimos. Sempre houve, e ainda há, pessoas que não acreditam em Deus. Muito menos num Deus Amor, como O chamou o Evangelista. Porque nunca o viram, tocaram ou sentiram. Pôr isso, Deus se encarnou em Seu Filho Jesus, corporificando o Seu amor pelos homens, para que os homens cressem n’Ele. Transformado em pessoa humana, como nós, Ele passou não só a ser sentido, como visto, conhecido, tocado. Amor divino, humanamente encarnado, Cristo tornou-se o Arquétipo do Amor. Daí o seu único e apropriado mandamento “amai-vos uns aos outros como EU ( homem como vocês ) vos amei”. Não como Deus, uma abstração, vos ama.
Luiz A. M. Giacobbo

AMOR, PAIXÃO E OS NAMORADOS



Cessadas as controvérsias apaixonadas, pode-se falar com serenidade sobre a Paixão de Cristo. Pretender repartir culpabilidades pela sua ocorrência, é ignorar a divindade encarnada. Cristo não foi morto. Imolou-se por amor à humanidade. “Não existe amor maior do que dar a vida pelo irmão.” A sexta-feira santa, porém, ficou para trás. O foco do momento é o “Dia dos Namorados”. Será o caso de festejá-lo ou lamentar a perda de seu sentido romântico, em favor do objetivo mercantilista ?! Embora no termo namorado esteja inserida a palavra amor, os namorados, ao que parece, hoje em dia não se enamoram, amam e casam, como antigamente. Ficam na paixão. E enquanto dura. Pois, a paixão é passageira. É um fogo, abrasador às vezes, porém fátuo, se não for permanentemente alimentado pelo amor. A preterição decorre da própria natureza do amor. Segundo o Apóstolo Paulo, “o amor não busca o próprio interesse. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Não é passageiro. É eterno”. Hoje, no entanto, busca-se o próprio interesse. Não se desculpa, não se tem fé, paciência para esperar, “saco” para suportar. Busca-se o mais moderno, o mais novo. O celular, o computador, o carro, o parceiro. O descartável. Não há amor à profissão. Busca-se o ganho. Não há amor à arte. Busca-se a fama. Não há amor ao esporte. Busca-se a vitória. Não há paciência para esperar enriquecer. Rouba-se. Não se é fiel. Trai-se. Não se suporta. Manda-se em frente. Para que serve, então, o amor ? ... Para que serve o namoro, além de alavancar, com as vendas de seu dia, o superavit primário ?... Desembocar no casamento, que transforma as pessoas, não em membros de uma comunhão de felicidade e amor, mas em “infelizes tiranos domésticos”, segundo uma badalada escritora americana ? ... Pena, assim se pense, se aja e atestem as estatísticas. A falta, esta sim, de um fiel, profundo e duradouro amor conjugal está alienando as pessoas. Deprimindo-as. Levando-as à solidão, ao estresse, à infelicidade, ao vício, à busca de manuais de auto-ajuda. O amor paulino, ao contrário, pode até, aparentemente, terminar numa cruz. Mas é o único caminho, a páscoa da verdadeira felicidade. A fé e a esperança desaparecerão, um dia, com a morte. O amor, porém é eterno. Porque o Eterno é Amor.

Monday, July 19, 2004

Balada Do Nós

No princípio era o eu. Depois era o tu.
Só depois, bem depois, surgiu o nós.
Eles viviam, na verdade, muito sós.
Um dia o eu e o tu se encontraram. Se conheceram. 
Se enamoraram e se entenderam.
Se amaram, se beijaram, se provaram.
Ficaram noivos e se casaram.
Nunca mais se sentiram nem ficaram sós.
Pois, no lugar do eu e do tu, surgiu o nós.
Diferente do meu tempo de rapaz,
O nós foi andando à frente, o eu e o tu foram ficando atrás.
O nós cresceu, cresceu, passou a viver.
O eu e o tu haviam morrido, tudo levava a crer.
O nós mandava, desmandava, tudo decidia.
Passando a ser dois num só, discordância não havia.
O eu e o tu, tendo passado a ser um,
Tudo decididam em comum.
Juntos vivivam, juntos moravam.
Juntos dormiam, juntos transavam.
Tiveram os filhos que queriam.
Mas, tantos quantos podiam.
Um dia, cada um deles casou.
O ninho do nós a ser só deles novamente passou.
Embora de novo sós, solitude não havia.
Porque mais e mais o seu amor crescia.
Mas, um dia, ai que dia! O tu morreu.
O eu sofre, até hoje, o amor que perdeu
Infelizmente, nada mais voltou a ser, como no tempo de rapaz.
O eu, solitário, foi andando em frente, porque o tu se quedou atrás.
A esperança do eu é que, amanhã ou depois,
Haja, no céu, eternamente, um lugar pros dois.
E, ouvindo Deus do eu a triste voz,
Transforme o eu e o tu, novamente, em nós.

Friday, July 16, 2004

MINHA ATRIZ, MEU "OSCAR"

Nunca fomos cinéfilos. Mas, sempre que possível, gostávamos de ir ao cinema ver um bom filme. E bom filme para nós era aquele que nos deixasse uma mensagem. Fosse comédia ou drama. Alegre ou triste. Afinal, tanto da alegria, quanto da tristeza se pode extrair uma mensagem. Uma lição de vida. Na verdade, querida, toda a vida, a vida de cada um de nós é um filme. De curta, média ou longa metragem. O nosso, casualmente, foi longo. Quiçá, poderia ter sido mais longo ainda. Dia destes, li uma linda história de um que durou apenas nove meses. A diferença entre os filmes está em que uns encenam histórias de vida reais, verdadeiras. Outros são mera ficção. Nestes, o cineasta decide a metragem e programa o início e o fim. Nos filmes da vida real, há um começo havido, mas o final não se pode "a priori" definir. Ele está nas mãos do Cineasta do Universo. Só pode, portanto, ser totalmente rodado e exibido após Ele colocar o famoso "The End". Tu gostavas de ver novelas, sobretudo se alegres e te deixassem mensagens positivas. Não pudeste ver os capítulos finais da última. Numa terça-feira, Deus de chamou para protagonizares o capítulo final da nossa. Do filme da nossa vida. A novela da TV terminou no sábado seguinte. A nossa no domingo. Sem sombra de dúvida, tu foste a estrela da película. Não roubaste apenas uma cena. Roubaste o filme todo. Por isso, ele só poderia terminar, como terminou, contigo. Com a morte da atriz principal. Hoje, para matar a saudade e te sentir presente, sobretudo à noite, sono perdido, revejo cenas dos papeis que desempenhamos. Luzes apagadas. Platéia silenciosa. Alguns dormem. Não se houve o tilintar de celulares nem a trituração de pipocas. Todo o filme é sobre o passado. Toda a lembrança é do passado. Sozinho, recostado na poltrona da noite, vejo e revejo as cenas. E fico feliz, muito feliz de ter, ao longo de 55 anos, contracenado contigo. Se houvesse um "Festival de Filmes da Vida", e eu fosse um dos jurados, o "Oscar" de melhor atriz seria teu. Porque além de real, bonito, com o teu maravilhoso desempenho, ele nos deixou, como buscávamos nas películas cinematográficas, uma mensagem. Aliás, duas mensagens. "A Felicidade É Possível" e "Vale a Pena Casar". A luz do lanterninha atravessa as venezianas do quarto, indicando que a sessão terminou. Está raiando um novo dia. Mais um dia sem o meu "Oscar".

TU ÉS IMORTAL

Há pessoas que passam pela vida sem deixar sua marca. Mortas, continuam mortas. Há as que marcam de uma forma indelével sua passagem pela terra. Mortas, continuam vivas. Escreveu alguém que "dizer te amo (o que te disse milhares de vezes !) significa dizer não morrerás". Realmente, uma pessoa amada, como tu foste, querida, jamais morrerá para o amante. Mas, após a morte deste ? ... Quem creu em Cristo, na palavra dele, como tu  creste, não morrerá. "Quem crer em Mim viverá eternamente!". Resta driblar a morte e prolongar a tua vida neste mundo. Li de um cronista que a poeta Edna St.Vincent Milay, teria escrito num verso famoso: "Read me, do not let me die", leia-me, não me deixe morrer. Escritores, através de suas obras, santos e heróis, biografados, gozam de uma certa imortalidade terrena. Porém, como tudo o que é terreno, eles têm o seu tempo. Todos correm o risco de, com os anos, serem esquecidos. Tu nunca me pediste para, mesmo depois de morte, não te deixar morrer. Não imitaste a poeta - "fala comigo, não me deixes morrer." A idéia foi minha. Encontrar mais um jeito para continuares vivendo conosco. Falar contigo, como tenho feito, relembrar nossa vida, a intensidade de nosso amor, tuas qualidades e defeitos, tuas virtudes e eventuais pecados, é uma forma de não te deixar morrer. Não te imortalizam, mas prolongam tua vida no tempo. Vaidosos, como Talleyrand, cunharam frases como "falem mal, mas falem de mim !. E um outro, para propositadamente ser lembrado, "me esqueçam!". Os simples fazem o bem sem esperar recompensa ou imortalidade. Sequer o céu. Mas todos gostaríamos de sobreviver na memória de nossos descendentes. Quem não se recorda, com saudade, de mãe, pai, irmãos, parentes, amigos ?!... Lembrá-los é mantê-los vivos, presentes, imortalizados. Estão aí os dias dedicados a cada um deles, o onomástico dos santos, que nos fazem reviver sua vida, seu assado. Há, até, os que acreditam que a eternidade não consiste em céu, inferno, reencarnação. A eternidade, para estes, não é nada mais do que a nossa sobrevivência na memória de nossa progênie. Eu, para não arriscar, prefiro acreditar nas duas hipóteses. Na eternidade celeste, eterna, prometida por Cristo àqueles que, em vida, guardaram os seus mandamentos, e na imortalidade terrestre, passageira mas prolongável, conseguida por aqueles que, em vida, distribuíram amor, muito amor. E, como recompensa, permanecem vivos no coração de seus amados. É o teu caso, querida. Tu não continuas viva apenas porque converso contigo, mas pelo grande amor que nos dedicaste. Por tudo quanto significaste para nós, continuas vivendo em nós e conosco.